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Correio dos Vinhos e Petiscos
Número treze • trimensário newsletter • Director: Álvaro Vale
Nesta edição       Edição 13 - Versão impressa
- Primeira página

- A Pias o que é de Pias

- O vinho branco invisível da Ervideira feito com uvas pretas

- Teor alcoólico dos vinhos aumentou 2,3 graus

- Vini Portugal


- Projecto vínico Discórdia entre Mértola e o Pomarão

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- No fecho da Edição















 

A Pias o que é de Pias ...

O belíssimo vinho de Pias, freguesia do concelho de Serpa, já nas proximidades de Espanha, começou a ter fama no início dos Anos de 1950 quando era vendido em garrafões de 5 litros pela Adega de João Braz Rogado, na altura o maior produtor da região. Mas seria José Veiga Margaça, empresário de Torres Vedras, um dos grandes dinamizadores, ao comprar em 1973 a Adega e uma propriedade de 800 hectares a João Braz Rogado... numa época em que pouco se falava de vinhos. Tempos muito mais difíceis, mesmo para os empresários da estaleca e paixão como Veiga Margaça, num país que jamais sonhara com a CEE e que enfrentaria problemas até aderir à União Europeia.

Habituado a lidar com os produtores e a ser intermediário no negócio, José Veiga percebeu que o futuro estava em Pias. E o sucesso, tem sido tão grande pela qualidade e procura... que os vinhos ultrapassaram já os limites da sua região demarcada, a ponto de muitas empresas produtoras do tipo Pias nem estarem lá sediadas. Em Pias há somente dois únicos produtores, sendo a grande referência a Adega Margaça (Sociedade Agrícola de Pias), empresa familiar fundada pelo torrejano que em 1973 se estabeleceu para sempre na soalheira aldeia alentejana, com visão, não só no aspecto comercial, mas pela qualidade dos vinhos que já antevia. Tempos em que os vinhos portugueses eram ilustres desconhecidos... Portugal e Espanha estavam fora do Mercado Comum; além disso, não havia Organização Mundial do Comércio...e nem se pensava nos países BRICS e na globalização desencadeada por estas novas economias na transição do século XX para o século XXI... economias que descobriram e alavancaram os vinhos peninsulares, em alternativa aos franceses...por serem mais baratos e de qualidade soberba. Tudo isto, para se entender o longo caminho empresarial de José Veiga Margaça, que muito sofreria com as ocupações da reforma agrária... prolongadas durante quase 10 anos... até à devolução completa de vinhas e olivais... Eram cinco montes alentejanos com quase mil hectares, considerados do melhor da região para vinhas e oliveiras. Mais tarde, já no século XXI, a construção da barragem do Alqueva viria a transformar uma vasta área tradicional de sequeiro em regadio, resultando em mais-valias... a plantação de amendoeiras, inéditas no Alentejo. Agora, graças à fartura de água observamos um amendoal em 260 hectares... aliado a 300 ha de olival, em tradicional e intensiva, com produção de azeitonas Cobrançosa, Galega e Cordovil. Assim reapareceu nos últimos anos, a Sociedade Agrícola de Pias - empresa de José Veiga Margaça, com todo o fervor e paixão do seu patriarca fundador, homem que nunca virou a cara às adversidades. À frente, está agora seu neto Luís Filipe Margaça Lopes, de 31 anos, formado em Gestão pelo ISCTE, e que não esconde as preocupações próprias de um jovem empresário que baseia a sua actividade em trabalho e planificação, a ponto de pensar seriamente em nova adega num dos montes, para centralizar toda a logística desde a produção aos transportes e distribuição; apesar da adega em Pias ser bem espaçosa. Luís Filipe, tem como grande retaguarda sua mãe, Fernanda Margaça, investigadora em Física Nuclear, com um doutoramento pela Universidade de Oxford, Inglaterra, que tem o foco no olival, e fala com visível satisfação das oliveiras carregadas de flor, durante uma visita do Correio dos Vinhos pela vasta propriedade, sob o cenário dos campos ondulantes de pequenas elevações num raio de 360 graus, onde se ouve o silêncio, apenas cortado pelo chilrear dos pássaros por ali e acolá, alternados com brisas e ventos, ainda refrigerantes em Abril e Maio... Pela ambiência e a paisagística, antevêm-se alguns projectos de turismo rural dada a proximidade da raia espanhola e as condições naturais propícias ao repouso durante o ano, aliado ao conforto que pequenas pousadas de enoturismo podem oferecer nos tais montes. Bastaria restaurar velhas casas e estábulos, obra não isenta de custos empresariais, que os proprietários ponderam a seu tempo num pacote de agroturismo.

Um terroir pequeno que dá azo a imitações....
Mas o terroir dos vinhos de Pias é relativamente pequeno, dado o tipo de solos e as condições climatéricas locais exigíveis para a DOC (Denominação de origem controlada), o que inspira outras produções baseadas no topónimo... sem serem afinal genuínas. Voltemos à estória de certos vinhos, que se apresentam originários ou aparentados da região...mas produzidos a léguas de Pias, confome nos conta Leonardo Maia, engenheiro enólogo, responsável pelos sete vinhos da Adega Margaça, produzidos em 140 hectares. “A marca Pias tem proliferado sem ter nada a ver com o genuíno Pias, enquanto região vitivinicola. E nem sequer as firmas que os comercializam têm sede em Pias. São vinhos de natureza diferente e até duvidosamente nacional, porventura espanhóis, lançados na comercialização, apresentando Courelas, etc, ligados a Pias. Aqui só existem dois produtores a Sociedade Agrícola de Pias ou Adega Margaça, e um outro produtor”!, esclarece. Quanto à especificidade do terroir -- conjunto das condições naturais: geologia, terreno, clima, meteorologia, castas e história da vinha da região, Leonardo Maia fala um pouco de Pias: “Do ponto de vista da rocha e solo arável, temos aqui uma componente argilo-calcária e, embora inseridos numa zona mediterrânica, temos clima continental, com grandes amplitudes térmicas, muita solaridade, céu pouco nublado, com uma média anual de 10 horas de sol diárias. Isto define o terroir e suas características, juntamente com as castas, tintas por ordem predominante: Aragonez, Alicante, Alfrocheiro, Syrah, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Touriga Franca, Trincadeira e Sousão, originária da região do vinho verde, e em experiência devido à mudança climática que se está a dar, ou seja a elevação da temperatura, devido ao aquecimento do globo pelo efeito estufa”. Completam o naipe do portefólio as três castas de uvas brancas Antão Vaz, Arinto e Verdelho.

Um portefólio de sete vinhos tintos e brancos, dos 13,5 aos 14,5 graus.
O enólogo salienta mais alguns pormenores imprescindíveis ao êxito do vinho, desde o clima continental, no período extremamente quente, da maturação da uva, já no Verão. E se quisermos tirar todo o proveito da uva, não podemos ir para um vinho de 12 ou 12,5 graus.... Para descanso de muitos aspirantes a aficcionados, adianta: “Os vinhos do Alentejo são fáceis de beber, muito saborosos e verdadeiramente gulosos, em particular o Pias...mas para tal, é necessário o tal álcool em percentagem (ou graduação)”! E Leonardo Maia, esclarece que os teores alcoólicos são muito diferentes de há 40 ou 50 anos, pois devido ao “aquecimento do planeta e o subsequente efeito de estufa, Por seu turno e a propósito, o viticólogo da adega Margaça, engenheiro João Torres, recorda: “Quando em 1970 comecei a trabalharem vinhas do Esporão, as graduações eram muito baixas, e devo dizer que o vinho regional alentejano poderia ter um mínimo de 11,5 graus e um DOC apenas 12 graus... Mas , como é sabido, ocorreu um aumento das temperaturas, devido à mudança climatérica nos últimos 40 anos. Há 40 anos, a vindima começava em meados de Setembro e, nalguns pontos em Outubro. Na primeira vindima que fiz, em Reguengos de Monsaraz, foi necessário insistir com a Adega da CRMIM para se iniciar a vindima antes de 5 de Setembro... E hoje, a vindima começa a ser feita na segunda ou terceira semana de Agosto”! Quanto ao portefólio de vinhos é o seguinte: Margaça branco e tinto; Aspias branco e tinto, citando uma canção tradicional : Lá vai Serpa, lá vai Moura, e As Pias ficam no meio !; Pulo do Lobo branco, tinto e rosé; Encostas do Enxoé branco e tinto; Igreja Velha tinto, Quatro Décadas tinto; D. Fernanda tinto.

Produção de 1 milhão de litros, exportação para cinco países
A produção da Adega Margaça (Soc. Agr. de Pias) pode atingir um total de 1 milhão de quilos de uva, oscilando nos 600 a 800 mil litros de Tinto (cerca de um milhão de garrafas) e entre 150 a 200 mil litros de Branco. As exportações incidem em cinco países - Taiwan, Brasil, Alemanha, Holanda e China. A empresa dispõe de 31 colaboradores, e na sede, -- além de uma loja de vendas,onde a neta do fundador, Amália Margaça Lopes está presente,-- existe também um interessante espaço museológico, alusivo à memória histórica da adega Margaça, fundada em 1973 por José da Veiga Margaça. Ao lado, uma sala de provas de vinho onde se efectuam reuniões, palestras e workshops. A completar a zona aberta ao público visitante, um winne’s bar com esplanada no exterior. Ao longo do ano, o espaço recebe regularmente visitas de grupos de todos os quadrantes, animando um pouco o quotidiano de Pias e seu comércio. Luís Filipe Margaça Lopes, leva-nos em visita guiada à adega, onde tudo se passa, desde a recepção das uvas, à produção, estágio, enchimento e saída para distribuição comercial. Chama-nos a atenção, tendo em vista uma maior maceração (inerente aos princípios activos), a adega vai ser ampliada com mais cinco cubas troncocónicas de várias capacidades.. Passamos à zona primitiva, adega velha, com tanques de betão armado dos Anos de 1950. “O interior foi pintado com tinta epoxi para que os vinhos sejam utilizados com normas de segurança e higiene alimentar”. Os referidos tanques, apresentam “pormenores de grande interesse técnico, pois estes depósitos forma construídos em unidades inidvidualizadas, permitindo entre eles a circulação de ar fresco, e que a temperatura de uns não passe ou influencie a temperatura dos que os ladeiam”, sublinha. Esta parte velha comporta 980.000 litros, enquanto a parte nova tem espaço para mais um milhão de litros de vinho. Apesar do enorme espaço, o gestor pondera a construção de nova adega num dos montes da herdade, para racionalizar tarefas e logística. Passamos ainda pela zona das barricas, com três tipos de origem de carvalho: América, França e Cáucaso, escolha do enólogo Leonardo Maia. Cada barrica dá um sabor diferente e, os melhores vinhos topo de gama, selecção ou de autor, são estagiados em barricas. Depois fala um pouco dos seus produtos: “Os vinhos brancos querem-se aromáticos e frescos.Para tal, as uvas são vinificadas pelo método de”Bica Aberta”, que consiste em fermentar apenas o mosto das uvas”. Entretanto, realça um pormenor já quase generalizado, a vindima de noite: “Apanhamos as uvas à noite e de madrugada, consoante o tempo, com o objectivo de preservar as uvas e protegê-las das temperaturas elevadas, a fim de evitar perda de qualidade da uva na transformação”!

Cinco Montes Alentejanos num panorama a 360 graus

A Herdade Margaça distribui-se por cinco montes, ao longo de 700 hectares (outros 100 ha foram expropriados pelo EDIA em 2014, para construção de uma pequena barragem próximo de Pias) a saber: Monte Branco, Monte da Parreira, Monte Velho de Baixo, Monte Velho de Cima e Monte da Torre, quase todos com depósito de água à antiga e, velhas casas rurais, algumas em ruínas, estábulos e armazéns de alfaias agrícolas e currais, circundados de árvores de fruto e uma ou outra oliveira. De viatura, percorremos um a um, na companhia de Luís Filipe, que nos vai historiando sobre a propriedade e os projectos de seu avô, homem que soube enfrentar vicissitudes. De monte para monte, não são mais do que 5 a 10 minutos, no máximo. Paramos, sentimos leves odores campestres, e observamos coelhos bravos e lebres a cirandarem por pátios há muito desabitados. Avaliamos as habitações arruinadas, mas ainda capazes de albergar um interessante conceito turístico em rede entre os montes -- um desafio a qualquer arquitecto ou designer que se interesse pelo género. Para tal, bastaria investimento disponível e uma acção séria e programada de marketing da respectiva região de turismo e o interesse do município de Serpa, cujo autarca já reuniu com os produtores em defesa do vinho genuíno de Pias. Depois, é Fernanda Margaça, cientista de Física Nuclear, que nos conduz pelo intervalo das fileiras de oliveiras, em boa geometria, que facilita a circulação de viaturas, num terreno macio, ladeado pelo verde do olival em flor (candeio). Refere-se à grande revolução no olival feita pela barragem do Alqueva, que permite a rega. “Podemos então avançar, reestruturar o olival e construir o lagar, porque a produção vai justificá-lo... a água, sendo vital para as oliveiras, vai aumentar a produção de azeitona por hectare ..e num futuro talvez se possa pensar no agro-turismo”, remata. Mas o mercado do azeite é ditado por Espanha, o maior produtor mundial, e que por tradição tem olival em sequeiro... A própria seca em Espanha também influencia os preços a que se submete a produção portuguesa, como numa bolsa de valores. Por isso, há muita gente a fazer azeite em quantidade, em virtude também do regadio. De resto,o olival segue o modelo 7X7, ou seja 200 árvores por hectare tradicional, agora regadio, com 10 toneladas de azeitona na mesma área, ou 1,5 toneladas de azeite. A Sociedade Agrícola de Pias desenvolve uma interessante acção social na vila, onde além de patrocinar o clube de futebol local, apoia os seus trabalhadores com bolsas em numerário, dirigidas aos filhos estudantes; tendo inclusivamente custeado em propinas e despesas de transporte (gasolina e gasóleo) de uma colaboradora formada em Gestão.


 
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